segunda-feira, 24 de maio de 2010

Doce ausência

Tem dias que ninguém me entende, e nem eu consigo essa proeza. Meus filmes favoritos parecem chatos, as músicas que amo não conseguem mais expressar sentimentos, meus melhores amigos parecem monótonos e o belo dia ensolarado parece ter escolhido a hora errada para aparecer. É o tipo de dia que acordo com vontade de continuar na cama, mas até dormir me deixa entediada. Olho o relógio várias vezes seguidas. Depois da décima vez consecutiva começo a pensar que estou com “toc”, mas os ponteiros insistem em não sair do lugar. Depois de um tempo o vício passa para o celular, mas ele também não toca. A caixa de e-mail não tem mensagens e no facebook nenhuma novidade. Nem as contas se lembraram de chegar pelo correio.


Andando em círculos pelo quarto percebo a caixinha de lembranças em cima da bancada. Por um breve momento me pergunto se essa é uma boa hora para abri-la, mas quando me dou conta já está tudo espalhado pelo chão. São tantas cartas, fotos, emails, postais, presentes que fico entorpecida por alguns segundos. Como pode uma caixa guardar tantas historias?

Em seguida as recordações invadem minha mente. Os amigos de infância, as paixões, as viagens, o primeiro amor, o colégio, as brincadeiras de criança, o bolinho da vovó. Cada um deles teve sua sensação única e inexplicável, deixando marcas e formando uma parte de quem sou hoje. Um choro parece estar entalado em minha garganta, mas os meus olhos brilham intensamente e sinto um sorriso singelo em meus lábios. É a saudade que chegou para me fazer companhia, mais uma vez.

domingo, 23 de maio de 2010

Eu, meu braço quebrado e um ônibus.




Após meia hora de espera finalmente passa o ônibus 2113 consideravelmente cheio, o que é de se esperar em uma sexta feira, e essa está particularmente um caos. A estrada do Joá foi interditada devido a um acidente e dois carros enguiçaram, um na entrada e outro na saída do Túnel do Joá em direção a Barra da Tijuca. Chegar em casa hoje será mais difícil que o de costume.

Entrei no ônibus lotado e perguntei ao motorista se eu podia ficar sentada no painel do carro, ao lado dele, pois não havia lugar para sentar do outro lado da catraca e seria terrivelmente difícil me segurar nos ferros de apoio com somente uma das mãos e uma mochila pesada nas costas. Dois senhores ficaram ao meu lado conversando com o motorista que interrompeu a conversa para falar ao celular enquanto dirigia. Após alguns minutos desligou o aparelho e continuou a conversar sobre o governo brasileiro – falavam o quanto o governo era corrupto e que a situação parecia não ter mais jeito. Cerca de cinqüenta minutos depois algumas pessoas desceram e como o ônibus esvaziou um pouco passei para o outro lado. Pus minha mochila no chão e fiquei em pé me segurando na barra, pois ainda não tinha nenhum lugar vago. Algumas pessoas que estavam sentadas pararam para me analisar, olharam primeiramente o meu braço imobilizado, minhas roupas, meu rosto e depois se viraram para um lado qualquer. As que sentavam no lugar reservado para idosos, grávidas e deficientes fingiram que não me notaram e continuaram o que estavam fazendo, nada.

Minutos depois um homem de mais ou menos 40 anos, bem vestido, fez um sinal pedindo para que eu sentasse em seu lugar e veio na minha direção para me ajudar com a mochila. Agradeci aliviada e retribui seu favor colocando sua mochila em meu colo para que não carregasse peso. Sentada ali, reparei nas pessoas ao meu redor. Notei um senhor, de má aparência, sentado na escada frente à porta recostado na estrutura de ferro encarando uma jovem que estava no lugar preferencial, ela simplesmente o ignorava – não somente ela, mas todos os que estavam sentados. Uns fingiam estar dormindo, outros olhavam com desprezo e alguns pareciam estar realmente cansados, mas ninguém ofereceu lugar a esse senhor, nem a ele nem aos outros senhores que estavam em pé no ônibus.

Quando chegou o meu ponto de descida tive que espremer meu corpo por entre as pessoas - que não davam passagem e me olhavam de cara feia pela minha atitude - para conseguir chegar na porta e poder sair.Finalmente cheguei em casa, viva e com meu braço ileso – pelo menos um deles.