As vezes demoramos uma vida inteira para perceber as verdades que estavam bem na nossa frente.
A tinta escorrendo, deixando tudo desbotado. A dor devastadora querendo sair pela garganta. Milhões de partes brilhantes espalhadas pelo ar. Vi minha alma se partir em pedaços com uma palavra. E foi aí que parei de existir. Como se meu o Eu tivesse saído do corpo. Comecei a me assistir como quem assiste a um personagem. Existia apenas o vazio da ausência, que por vezes era preenchido pela presença da dor. Era uma dor muda, mas eu ainda sentia.
Até que um dia eu parei de sentir. Não tinha dor, não tinha medo, não tinha o velho desbotado. Andava sem rumo pelas ruas até não aguentar mais, obrigando o meu corpo a sentir algo. Mesmo que fosse cansaço. E então eu me apegava a ele. Não tinha fome, mas comia nem que fosse para sentir enjoo depois. Relembrava o passado até ficar sufocada. Me sufocava até não ter mais forças. E ficava angustiada por não ter mais lágrimas para lavar a alma. Não tinha sequer alma. O som, as cores, foram todos embora. Até as palavras me abandonaram. E o tempo passou. Passou e passou, lentamente.
Palavras vieram e se foram. Ilusões me alegraram e me abandonaram. Brincava de pique com os sentimentos. Embebedava o vazio, na tentativa de alegra-lo um pouco. Passei a viver em um mundo que só pertencia a mim. Era minha propriedade, a única coisa que tinha me restado e não ia deixar ninguém levar embora. Criei uma barreira e não fazia questão de receber visitas. Espantava todos que ousavam se aproximar. Não era bonito como antes, mas era o melhor que eu podia ter. Tinha poucas palavras, alguns nos, o que sobrou do eu e o resto de você. Era meu, só meu. Talvez você.
Acordei no meio da madrugada de sábado. Vi luzes, cores, brilho, dança, palavras e sorrisos. Sentimentos oscilavam sobre mim. Misturas de calor e arrepios tomavam meu corpo. Depois de tanto tempo, finalmente eu conseguia respirar. Chorei. Só que não era tristeza, era a vida. Tinha pessoas ao meu redor cantando e pela primeira vez consegui ouvir o som de suas vozes e entender o que queriam dizer. Eram muitas! Mais de cem, eram uma só.
Demorei tanto tempo para ver o que estava bem na minha frente. Notar que não tinha vazio. Não fui roubada, foi uma troca. Você levou parte do meu Eu e em troca, deixou um pedaço de você. Na minha cegueira, só conseguia notar o que foi levado, sem perceber o que me foi dado. Tudo o que fiz tem uma parte de você. E tudo o que você faz, uma parte de mim.
Esperei, por muito tempo, você entrar pela porta e devolver o que me foi tirado. Hoje, não quero de volta. É o nosso laço. O nó que não se desfaz no tempo. Nunca estive e nem estarei sozinha, mesmo sem você ao meu lado.
Autor: Camille Valbusa.
"O amor que é verdadeiro tem obrigação de ser eterno, porque, se em algum tempo deixou de ser, nunca foi amor.Em todas as outras coisas o deixar de ser é sinal de que já foram; no amor o deixar de ser é sinal de nunca ter sido. Deixou de ser? Pois nunca foi. Deixastes de amar? Pois nunca amastes. O amor que não é de todo o tempo, e de todos os tempos, não é amor, nem foi, porque se chegou a ter fim, nunca teve princípio. É como a eternidade, que se, por impossível, tivera fim, não teria sido eternidade."
Trecho de Sermão do Mandato de Padre António Vieira.
O mundo precisa disso. Pelo menos o MEU mundo.
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