segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

No meio do caminho tinha uma pedra.


Acordei, olhei para o relógio e vi que ainda não estava na hora de acordar. Na verdade, tive a sensação de que hoje não era dia de acordar. Fechei os olhos de novo e pensei nos problemas que eu tinha para resolver ao longo do dia. Rolei para um lado, rolei para o outro, abri os olhos novamente. Merda. Peguei o telefone, liguei para a minha mãe e resolvi o primeiro problema. Mas foi só eu desligar o telefone para perceber que tinha resolvido um e arrumado outro bem maior. O cachorro, ela vai dar o cachorro. Puta que pariu. Após alguns segundos de aflição, decidi que essa não era a melhor hora para pensar nisso.

Dinheiro. Tenho quarenta reais na minha conta até o mês que vêm. Preciso comprar dois presentes de natal, pegar ônibus para ir e voltar do estágio, comer  e manter minha vida social. Eu nunca fui muito supersticiosa , mas parece que esse tal de "inferno astral" existe mesmo e resolveu me aparecer com duas semanas de antecedência. Ouvi um barulho de chave na porta, era meu pai. Entrou e me olhou com aquela cara de mal humor de segunda feira. De muita má vontade e depois de eu fazer um puta drama, ele me deixou cinquenta reais em cima da mesa e me mandou sair de casa. Disse algo a ver com ficar doente, estar pálida e sol. Não precisei pensar muito para realizar que aquela não era a frase de apoio que eu precisava ouvir.

Peguei a bicicleta e fui dar uma volta pela lagoa. Me perguntei o que me faria feliz naquele momento e me senti um pouco frustrada por não saber a resposta. Pensei em assaltar um ônibus para conseguir dinheiro para o resto do mês, mas a idéia me fez rir e desequilibrar na bicicleta. Já furtar dinheiro da carteira do meu pai enquanto ele dorme não me pareceu ser uma idéia tão ruim assim. Me repreendi por esse pensamento e tentei me concentrar no caminho. A pista está toda esburacada e faz um calor desértico, estou encharcada de suor. Tá ruim, mas podia ser pior. Eu acho.

Voltei pra casa, tomei um banho e peguei um ônibus para ir ao cinema. Vi um filme chamado: Adeus, meu primeiro amor. A mulher do caixa ficou com cinco reais do meu troco, mas só percebi isso na hora de pagar a pipoca. Não sou muquirana e não costumo ficar irritada com essas coisas, mas era o dinheiro de um dia de ônibus. O filme se passa todo na França e a personagem principal se chama Camille. Ela se parece comigo e a história do filme me lembrou muito um relacionamento que tive, claro que chorei.
Sentei no ônibus, bem na janela. Me arrependi de ter comprado a pipoca, grande. Mas essa mania americana de colocar a diferença de dois reais entre o pequeno e o gigante sempre me ganha, me sinto esperta fazendo isso. Gorda. Na hora de saltar do ponto ouvi um barulho. Será que era o meu Ipod? Olhei pro chão, não.. não devia ser. Lá fora eu olho na minha bolsa, pensei.

Corri, mas corri muito. Quase joguei na pista um senhor que andava de bengala. Atravessei ,por entre os carros, um sinal verde e ouvi um barulho horrível de freio ao meu lado, mas não desanimei. Ele parou no outro ponto e eu continuei para tentar alcançar.Tenho merda na cabeça, só pode. Com as pernas tremulas e desacreditada, sentei na calçada. Um homem parou ao meu lado, me olhou com um ar preocupado e seguiu seu caminho. Chorei. De raiva, cansaço, vazio. E chorei mais um pouco só por estar chorando. Parei e fiquei um tempo olhando para os carros. As vezes, sem perceber, a gente vai guardando os problemas dentro de um buraco e quando nos damos conta, estamos cheios de nada. Que nem ter uma caixa grande e bonita, carregar ela para todos os lugares e colocar lá dentro todas as contas que você não tem como pagar. Um dia não vai ter mais espaço para colocar coisas dentro e o que está lá, não te serve. E as contas, todas essas a gente vai ter que pagar, mesmo que não tenha data marcada. Um dia o tempo nos encontra na esquina para cobrar. Só cuidado com o juros, esse sempre nos pega de surpresa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário