Acordei,
olhei para o relógio e vi que ainda não estava na hora de acordar. Na verdade, tive
a sensação de que hoje não era dia de acordar. Fechei os olhos de novo e pensei
nos problemas que eu tinha para resolver ao longo do dia. Rolei para um lado,
rolei para o outro, abri os olhos novamente. Merda. Peguei o telefone, liguei
para a minha mãe e resolvi o primeiro problema. Mas foi só eu desligar o
telefone para perceber que tinha resolvido um e arrumado outro bem maior. O
cachorro, ela vai dar o cachorro. Puta que pariu. Após alguns segundos de
aflição, decidi que essa não era a melhor hora para pensar nisso.
Dinheiro.
Tenho quarenta reais na minha conta até o mês que vêm. Preciso comprar dois
presentes de natal, pegar ônibus para ir e voltar do estágio, comer e manter minha vida social. Eu nunca fui muito
supersticiosa , mas parece que esse tal de "inferno astral" existe
mesmo e resolveu me aparecer com duas semanas de antecedência. Ouvi um barulho
de chave na porta, era meu pai. Entrou e me olhou com aquela cara de mal humor
de segunda feira. De muita má vontade e depois de eu fazer um puta drama, ele
me deixou cinquenta reais em cima da mesa e me mandou sair de casa. Disse algo
a ver com ficar doente, estar pálida e sol. Não precisei pensar muito para
realizar que aquela não era a frase de apoio que eu precisava ouvir.
Peguei a
bicicleta e fui dar uma volta pela lagoa. Me perguntei o que me faria feliz naquele
momento e me senti um pouco frustrada por não saber a resposta. Pensei em
assaltar um ônibus para conseguir dinheiro para o resto do mês, mas a idéia me
fez rir e desequilibrar na bicicleta. Já furtar dinheiro da carteira do meu pai
enquanto ele dorme não me pareceu ser uma idéia tão ruim assim. Me repreendi
por esse pensamento e tentei me concentrar no caminho. A pista está toda
esburacada e faz um calor desértico, estou encharcada de suor. Tá ruim, mas
podia ser pior. Eu acho.
Voltei pra
casa, tomei um banho e peguei um ônibus para ir ao cinema. Vi um filme chamado:
Adeus, meu primeiro amor. A mulher do caixa ficou com cinco reais do meu troco,
mas só percebi isso na hora de pagar a pipoca. Não sou muquirana e não costumo
ficar irritada com essas coisas, mas era o dinheiro de um dia de ônibus. O
filme se passa todo na França e a personagem principal se chama Camille. Ela se
parece comigo e a história do filme me lembrou muito um relacionamento que
tive, claro que chorei.
Sentei no
ônibus, bem na janela. Me arrependi de ter comprado a pipoca, grande. Mas essa
mania americana de colocar a diferença de dois reais entre o pequeno e o
gigante sempre me ganha, me sinto esperta fazendo isso. Gorda. Na hora de
saltar do ponto ouvi um barulho. Será que era o meu Ipod? Olhei pro chão, não..
não devia ser. Lá fora eu olho na minha bolsa, pensei.
Corri, mas
corri muito. Quase joguei na pista um senhor que andava de bengala. Atravessei ,por
entre os carros, um sinal verde e ouvi um barulho horrível de freio ao meu
lado, mas não desanimei. Ele parou no outro ponto e eu continuei para tentar alcançar.Tenho
merda na cabeça, só pode. Com as pernas tremulas e desacreditada, sentei na
calçada. Um homem parou ao meu lado, me olhou com um ar preocupado e seguiu seu caminho. Chorei. De raiva, cansaço, vazio. E chorei mais um pouco só por estar
chorando. Parei e fiquei um tempo olhando para os carros. As vezes, sem perceber,
a gente vai guardando os problemas dentro de um buraco e quando nos damos
conta, estamos cheios de nada. Que nem ter uma caixa grande e bonita, carregar
ela para todos os lugares e colocar lá dentro todas as contas que você não tem como pagar. Um dia não vai ter mais espaço para colocar coisas dentro
e o que está lá, não te serve. E as contas, todas essas a gente vai ter que pagar, mesmo
que não tenha data marcada. Um dia o tempo nos encontra na esquina para cobrar. Só
cuidado com o juros, esse sempre nos pega de surpresa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário